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GHB - droga nova e mortal

Fonte - Fantástico - Rede Globo - 16/03/2003

Em fevereiro de 2002, um rapaz de classe média passa mal em um hospital em São Paulo. Minutos depois, entra em coma. Um ano depois, no Rio de Janeiro, a cena se repete. Um jovem fica entre a vida e a morte.

Para os médicos, um quadro clínico complicado: batimento cardíaco baixo, dificuldade de respirar. Por pouco, os dois escaparam da morte... Foram as primeiras vítimas no Brasil dos efeitos de uma droga produzida em laboratório, e de nome muito complicado: ácido gama-hidroxibutírico, mais conhecida como GHB.

A droga líquida, perigosíssima, que turbinou muita gente neste carnaval. “Ele é uma substância sem cheiro, sem cor, sem gosto. Pode ser misturado com qualquer coisa até na água sem que se perceba que está misturada”, explica Dartiu Xavier da 

Silveira, psiquiatra da Unifesp.

“Ele é um depressor do sistema nervoso. Não é um estimulante, não é um perturbador. Não tem as características do ecstasy, que é mais uma anfetamina. Ele é mais parecido com os calmantes”, compara o psiquiatra.

O GHB é tão potente que chegou a ser usado nos Estados Unidos para tratar distúrbios do sono. “O GHB era vendido em farmácias, lojas de suplementos vitamínicos, até ser proibido”, conta o neurologista Célio Levyman.

Por causa dos efeitos colaterais, o governo americano declarou o produto ilegal e inseguro em 1996. Mas jovens ainda arriscam a vida usando o GHB nas academias.

“Ele melhoraria a disposição do indivíduo para fazer atividade física e supostamente ele melhoraria a massa muscular”, aponta Dartiu.

E também nas raves, festas de música eletrônica. “Numa pista de dança você consegue identificar alguém que está turbinado, movido pelo GHB. É a pessoa que mais fala, a pessoa que mais dança”, conta um jovem que prefere não ser identificado.

“Na verdade, o que o indivíduo começa a sentir, não os efeitos depressores, mas os efeitos desinibidores”, explica Dartiu.

“A primeira vez eu passei mal. Vomitei muito. Tomei e vomitei muito”, recorda o jovem. “Ele pode ter dificuldade de respirar e que pode chegar até a morte”, afirma Dartiu.

O jovem conta que já teve cinco amigos mortos pelo GHB, seis em coma e mais de cem já passaram mal. O GHB foi uma das drogas encontradas no coquetel que matou, aos 23 anos, o ator americano River Phoenix, em 1993. Mas como é o estrago que ela causa no cérebro?

No sistema nervoso, existem regiões chamadas receptores. Elas são como fechaduras, que se encaixam em determinadas substâncias. Quando o “encaixe” acontece, começam as alterações no funcionamento do cérebro.

No caso do GHB, em doses baixas, o cérebro funciona em “câmera lenta", como se fosse o início de um pileque. Em doses altas, o GHB provoca um “apagão cerebral”. O usuário não se lembra de nada.

Por isso o GHB é conhecido como a droga do estupro. “Era oferecido para alguma menina, alguma moça. Ela entrava em sonolência, perto do coma, sofria abuso sexual e, quando acordava, não conseguia se lembrar de nada”, explica Levyman.

“Identificado o estuprador, ele vai responder por estupro e tráfico de entorpecentes, ou seja, ele receberia uma pena mais severa porque são dois crimes que ele cometeu”, diz o promotor de Justiça Marcelo Barone.

O assunto é tão sério que nos Estados Unidos parentes das vítimas do GHB criaram um site para alertar sobre os perigos da droga. Até agora, 240 pessoas morreram.

O médico Todd Bania, da Universidade de Columbia, em Nova York, uma das maiores autoridades em drogas sintéticas, alerta: “Quando essa droga é tomada regularmente, as pessoas podem se viciar tanto que chegam a ter que tomar de duas em duas horas. Conheço o caso de pacientes que acordam no meio da noite só para tomar outra dose de GHB. Não conseguem dormir oito horas seguidas.”

O GHB é vendido em pequenas doses: três mililitros. E o custo é extremamente alto: R$ 80 cada dose para um efeito que não passa de três horas.

“O medo é de morrer usando essa droga ou qualquer outro tipo de droga. Qualquer pessoa que usa droga tem medo de morrer com a droga”, conclui o jovem.